sexta-feira, 25 de março de 2011

Vencendo o dragão





Abriu os olhos. O céu era de um azul capaz de engoli-lo. As nuvens assumiam formas variadas, e mudavam de acordo com a intensidade do vento, que as soprava em meio à multidão. Subitamente o branco disforme da nuvem transformou-se em um dragão com garras poderosas, que tiniam ao cortar o ar pesado que rodeava seu corpo prostrado ao chão.

Não tinha outra opção. Sem pestanejar, colocou-se em pé, arrancando o paletó do terno que prendia suas asas. Elas palpitavam sob sua roupa com eloquência, tamanha era a vontade de fazerem-se livres.
Suas asas brilharam ao sol assim que se abriram, e sua envergadura atrapalhava os transeuntes que insistam em não perceber o momento crítico que se aproximava. Lançou mão de sua espada e apontou para o céu na esperança de que o dragão, agora ameaçado, fugisse antes que fizesse algum estrago. Mas o contrário se fez, e o animal enfurecido deu um rasante sobre sua cabeça, acertando-lhe a orelha esquerda, fazendo-a sangrar abundantemente.
Desesperado, olhou para o relógio e respirando fundo, concentrou-se nas lições que havia aprendido no último encontro de liderança da empresa. Ao ver o animal aproximar-se sem clemência, percebeu que não tinha muito tempo e colocando-se de pé, pulou sobre o ele com bravura, golpeando-o no peito sem piedade. O dragão então se debateu ferido e em meio a um grito agudo, desabou sobre o chão duro e frio da praça.
Algumas pessoas que ali olharam-no, reprovando-o pelo acontecido, mas ele não se incomodou. Havia salvado o mundo da desgraça e mesmo que não reconhecessem, sentia-se um herói.
Vestindo seu paletó tranquilamente, guardou suas asas monstruosas sob seu terno amassado e sentou-se encostado na grade, enquanto recuperava o fôlego. Estava nauseado, mas feliz.
Diante do burburinho que se formava em sua volta, talvez pela sua bravura, um rosto conhecido se aproximou. Sua medalha  de honra seria entregue pelo seu melhor amigo, que agora o observava com olhar reprovador.
 Jarbas, bebeu de novo? O chefe já perguntou por você e disse que não vai mais aceitar seus atrasos!
Olhou para o amigo de olhar comiserado. Passando as mãos sobre o sangue que descia pela lateral do seu rosto, em meio a um sorriso inocente, disse:
 Engraçado. Eu podia jurar que tinha me livrado dele.

Eliane Raye



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